Entre Mamas

Entre Mamas
Hugo Ribeiro 2007
Ma’linda Gorda é uma rapariga singela e com uma grande franja. Habitou desde pequena numa aldeia onde nunca houve um cabeleireiro senão a sua mãe. E uma tesoura gasta pelo tempo e pelos ossos do perú no natal. Ou pela matança da galinha, cortanto a cabeça fora, tradição que era um grande acontecimento em GrandeVista. Aldeia onde ela habilmente habitava. Habilmente porque com a sua franja, ela via-se aflita para conseguir ver o que estava à sua frente e então começou a desenvolver outras faculdades. Começou a ter contacto com os mortos. Ya... Eu sei como que é que isto soa...
Mas ela fora amaldiçoada. A tesoura que lhe cortava a franja, estava pejada de sangue das galinhas que eram mortas, muitas das vezes fora de época, em actos um bocado, Vodú... Então ela fora amaldiçoada terrívelmente. Um dia, quando o seu avô morreu, ela foi vê-lo à igreja. Então ele estava pálido, quando de repente lhe pediu ajuda. Foi um grande choque. A rapariga voltou-se assustada e tropeçou na carpete. Bateu com os queixos nos degraus e com o tapete vieram as velas, o caixão, o padre, e as flores atrás... Depois começou tudo a arder. Pelo menos pouparam na cremação do senhor. Mas desde esse dia, Ma’linda sabia que tinha um poder em si.
Entretanto cresceu e casou-se com o bombeiro local, Jimbo. Isto, porque um dia ele passou no Myspace dela e deixou-lhe um pedido de amizade. Mas ele nunca tinha feito tal coisa. Mas o Além decidiu juntá-los. Com a sua amiga Andreia, Ma’linda abriu uma sexshop dedicada a artigos antigos. Até aqui tudo bem. Mas Ma’linda nunca tinha contado sobre o seu dom ao seu recente marido. E na noite de núpcias, ele dirigiu-se a ela. Ela dirigiu-se a ele. E os dois beijaram-se ardentemente. Ela sentiu a sua barba àspera e no momento seguinte ele estava a abanar a sua língua grossa fora da boca. Mas não havia sinais de Ma´linda. Então acendeu a luz e procurou por ela. Começou a ouvir a sua voz vinda da cozinha. Quando lá chegou, ficou espantado a olhar para a mulher que gesticulava e falava na direcção do frigorífico.
- És um empata fodas! Frio que nem um calhau! – disse ela abanando a cabeça. – Quadrado quanto baste... Eu e o meu marido precisamos de tempo para estarmos juntos e tu vens chatear-me porque não consegues ver a luz?!
- Se o frigorífico quer ver a luz, basta abrir a porta... – disse Jimbo receoso.
- Jimbo! – exclamou Ma’linda apavorada. – Eu não estou...
- Estás a falar com o frigorífico em vez de estares a fazer amor comigo... – disse ele. – Até já perdi a...
- Eu consigo ver. – disse ela. – Vai vestir as cuecas, enquanto esclareço umas coisas com o Miguel.
Jimbo fitou-a por momentos. Até já tinha apelidado o frigorífico e tudo...
- A minha mãe não te falou do meu dom?! – exclamou ela preocupada.
- Qual? O de fugires e deixares-me sempre nos momentos em que estou louco por te agarrar, ou que tens poderes extra-sensoriais e consegues falar com os aparelhos electrodomésticos?
- Eu... – disse ela agarrando no braço dele e puxando-o para as cadeiras da cozinha. – Eu tenho um dom. Eu pedi à minha mãe para te contar, mas pelos vistos ela fez de propósito. Jim..bo... Eu falo com espíritos. E não com frigoríficos. Eles pedem-me ajuda para atravessar para o outro lado. Por vezes ainda têm coisas para resolver, e contactam-me para entrar em contacto com os seus entes queridos. E eu estava agora mesmo a falar com o Miguel, aquele que foi atropelado pela carreira ontem de manhã e que quando se levantou, nas suas últimas forças, foi atropelado pela ambulância... – explicou ela complacente.
- Ai sim... Então e ele agora quer o quê? O passe da camioneta para passar para o outro lado? – perguntou Jimbo.
- Não gozes. – disse Ma’linda ofendida. – Eu sei por exemplo que tu, na universidade foste assediado pela equipa de futebol nos balneários e que não apresentaste queixa porque a resistência não foi muita.
- Como é que sabes isso?! – gritou ele assustado.
- O Miguel, que está aí atrás de ti... É um fantasma. Ele consegue entrar dentro do teu cérebro e ver tudo... Até os segredos mais profundos. Não é apenas um frigorífico.
- Lembra-me de nunca te comprar uma Bimby. – disse Jimbo por fim.
No dia seguinte ela contou esta aventura à sua amiga Andreia, na sexshop que ambas possuem, numa esquina da rua direita com a rua do fundo. Andreia pousou uma caixa cheia de algemas ferrugentas e ficou a pensar por um bocado.
- Então, tu descobres que o teu marido foi violado por uma equipa de futebol, e que gostou e tu... Ainda consegues voltar para a cama e fazer amor com ele? Não ficaste chateada?! – perguntou Andreia aparvalhada.
- Claro que não. – disse Ma’linda com um sorriso. – Foi o Miguel, o fantasma que me apareceu ontem. Ele entrou na cabeça de Jimbo e criou aquela ilusão, como se fosse uma memória real.
- Ah... – disse Andreia.
Momentos depois, o jornaleiro entrou com as notícias bem fresquinhas. Deixou o jornal da vila e foi embora sem não antes dar uma vista de olhos esquiva às caixas das bonecas insufláveis dos anos trinta. Na capa do jornal vinha a notícia que andava a na berlinda nos últimos dias: o marido de Ana Mamalhoa, tinha-a assassinado a sangue frio com uma bala no coração. O pai dela estava furioso, e o pobre dizia-se inocente.
- Eu gostava tanto de a ouvir... – disse Andreia. – Com o seu tema ‘Eu sou Mama’linda’ versão reggaton.
- Olha que tu também... – suspirou Ma´linda.
No momento seguinte, o sino da porta da sexshop tocou e a porta fechou-se. Havia uma rapariga de cabelo imenso, que apreciava os objectos expostos com algum receio. Era tudo tão estranho que até lhe esbugalhava a vista. Era Tufa.
- Olá querida, em que posso ser útil? – perguntou Ma’linda com um sorriso.
- Olá... Eu queria comprar uma coisa... É que eu e um amigo meu, o Hugo... Fazemos dez anos que nos conhecemos, então ele vai fazer uma festa... temática. Ao som dos Abba. – disse Tufa revirando os olhos.
- Pois... Hoje em dia esta gente ouve com cada merda... – disse Ma’linda.
- Então e quer oferecer um objecto sexual ao seu amigo? Ele está com alguma dificuldade nessa área? – perguntou Ma’linda.
- Pois... Boa pergunta... Bem, mas não é isso. Ele tem a mania que é Hardcore, então eu pensei que se podia oferecer-lhe algo... Uma merda qualquer para ele usar, mas que seja um bocado... Assim... pronto... Não é objecto sexual...
- Já pensou oferecer-lhe um acessório, sado-mazo? – perguntou Ma’linda.
- Pois... Mas eu não sei se ele é sado, ou mazo... – disse Tufa.
- Ora pense. Como é ele como pessoa... como amigo...
- Definitivamente algo Mazoquista. – assentiu Tufa.
- Olhe, temos aqui umas coleiras de bicos que chegaram hoje. Comprei-as em leilão pelo miau... E se ele acha que é Hardcore, pode usar isto apenas como acessório. Algumas já estão meio ferrugentas... Mas há aqui uma que parece estar nova. Falta-lhe é um bico. – disse Ma’linda.
- Ah... Não faz mal. O meu amigo já está habituado... Mais bico, menos bico... Ele há-de inventar alguma teoria de que nem toda a gente tem que ter os bicos todos, e depois arranja um significado obscuro qualquer para provocar as pessoas pela falta de bicos... Como aquelas merdas que ele trás atadas às calças... Uns atacadores. É mesmo cona... As pessoas perguntam-lhe porque raio é que ele anda com aquilo atrelado, e ele mete um ar tipo mete-nojo-a-pessoas-ignorantes e diz que é um significado especial... – disse Tufa aborrecida.
- Mas ele é seu amigo... – disse Ma’linda.
- Ele é mas é parvinho. Alguém por ventura ata uns atacadores à merda das calças e diz que é um significado especial? Ou pior... Quando lhe dá na telha é aos pulsos... Já para não falar numa merda pseudo medieval que ele arranjou de cabedal e depois faz-se passear como se não houvesse amanhã com aquilo... o único significado especial que ele tem é um parafuso encravado... nem é a menos, é encravado. Por isso essa coleira até que é ideal... – disse Tufa abanado a cabeça dando uma olhadela rápida ao jornal que estava em cima do balcão. – Ah... A Ana Mamalhoa bateu as botas?!
- Pois é... O marido assassinou-a. – disse Andreia.
- Também... Só uma pessoa atrasada é que ia gostar de ouvir aquelas musicas estúpidas em raggaton... – disse Tufa.
- Eu gostava. – disse Andreia ofendida.
- Ora... – disse Tufa agarrando no embrulho com receio. – Está aqui a nota. Fique com o troco...
Tufa saiu a correr. Ma’linda lembrou-se e veio à porta da loja, e gritou para Tufa que já ia ao fundo da rua, em hora de ponta:
- E se o seu amigo quiser, ele que venha cá depois que a gente faz-lhe o bico! – sorriu Ma’linda acenando alegremente a um fantasma que olhava espantado para ela do outro lado da rua.
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Quando Tufa se aproximou da garagem de Hugo pensou duas vezes. Entrava, não entrava... Já se conheciam há muito tempo, mas isso não queria dizer propriamente que importasse para alguma coisa. Cisse estava à porta da garagem a hiperventilar.
- Passa-se alguma coisa?! – exclamou Tufa fazendo uma boquinha.
- O Hugo... Além de estar a tocar aquelas musicas tumulares dos Abba, não tem bebidas alcoólicas de jeito e está a dançar agarrado a um varão. – disse Cisse. – Ele já não é a mesma pessoa... Algo de estranho se passa.
- Deve ter sido desde que começou a ouvir os Abba. – constatou Tufa.
- Qual quê... A mãe dele tinha os discos em casa. Ele sempre ouviu aquilo. Uma vez para o gozo ainda vá, agora fazer daquilo a sua banda sonora diária é um bocado mau... E agora anda feito parvo a dizer que vai fazer um altar aos Abba. – disse Cisse preocupada. – Que lhe vais oferecer?
- Uma coleira de bicos... Ele andava com a mania que era Hardcore... – disse Tufa.
- Pois. Boa sorte.
- Então... Que lhe ofereceste? – perguntou Tufa receosa.
- Ofereci-lhe uma sapatilha de cada, e ele disse: Ah...Porque não as calças tu?! Ele está perdido... Fizeram-lhe uma lavagem ao cérebro desde que foi para aquela coisa da Vila Natal...
- A quem o dizes... – disse Tufa esbugalhando os olhos e abanando a cabeça.
Quando Tufa entregou o presente redondo, Hugo encheu-se de alegria.
- É um cd dos Abba?! – perguntou ele.
- Quantos cds tens?! – perguntou Tufa.
- Os nove albuns de estúdio, onze compilações, o albúm antes de serem conhecidos como Abba, o albúm que nunca saiu, três albuns de comemoração, dois albuns de raridades, três albúns ao vivo, um album em que eles tocam e fazem duetos com outro artista, tenho dois albuns a solo da loura, a Agnheta, tenho...
- Chega! Não são já os suficientes? – perguntou Tufa.
- Sem contar com os mais de quarenta remixes que eu tenho... Mas... Uma coleira de bicos?! – exclamou Hugo ao abrir o embrulho. – Isto era bom para quando eu estava numa fase mais hardcore...
- Então e agora estás em que fase, pode-se saber?! – gritou Tufa irritada.
- Anos setenta... – disse Hugo.
- Cala-te. – disse Tufa quando Cisse se aproximou. – Esta festa era supostamente para ser nossa. Mas tu és tão egocêntrico que pronto... Tinhas de transformar isto ao teu gosto... E vê lá se paras com essas merdas de fases e merdas penduradas porque se não queres dizer às pessoas o que significam, não as provoques!
- Mas é íntimo... – queixou-se ele.
- Se é íntimo não andas por aí a exibir, quando não queres falar disso. És cona ou quê?! – gritou ela pondo toda a gente a olhar.
- Eu tenho um presente para ti... – tremeu Hugo com um embrulho na mão. – É um telemóvel... Fui ontem para lisboa acampar à porta da loja para poder comprar...
- Oh... – disse Tufa arrependida de tudo o que lhe dissera antes.
- Tem uma capa dos Abba, e os toques são todos reais, e o tema é o Fernando, e a Chiquitita dos Abba... Para te lembrares de mim. – disse Hugo.
Tufa ficou boquiaberta. Cisse, estupfactiada.
- Olha, enfia o telemóvel no cu! – gritou Tufa. – Assim, quando quiseres cagar e não conseguires, chamas o Fernando! Cisse?
- Sim, vamos. – assentiu Cisse.
E assim a festa acabou. Hugo. E os Abba. E a coleira de bicos na mão. Então sentou-se sozinho na cadeira. Então mandou um pontapé na aparelhagem e os Abba ficaram um bocado riscados. Sempre a entoar a parte “Aha” do tema Voulez-Vouz. Durante mais de dez minutos enquanto Hugo pensava no que podia estar errado para os seus amigos terem tanta raiva, mas realmente... Não conseguia perceber. Então colocou a coleira ao pescoço. E o chão começou a tremer. De repente houve uma rajada de luz. E um grito polifónico.
Ma’linda que estava sentada na sua casa, a ver a sic, com o seu Jimbo, pressentiu que algo estava errado. Tinha adormecido a ver a Família Super-Poop e sonhou com uma coleira de bicos. Era estranho, mas não conseguia perceber quem era a pessoa que usava a coleira no seu sonho. Jimbo olhou a sua amada.
- Não telefonaste para a sic enquanto eu dormia, pois não?! – disse Ma’linda.
- Eu?! – disse ele ofendido.
- Bom. Tive um sonho estranho... Sonhei com a coleira de bicos que vendi hoje a uma rapariga. É isso! Ela está em apuros! Amanhã vou tentar telefonar-lhe.
- Amor, vai dar o Entre Vidas. – disse ele. – Aquela série que tu gostas de ver, em que a Melinda Gordon ajuda os espirítos a ir para a luz.
- Isso é tudo treta. – disse Ma’linda. – Entre Vidas? A pessoa já está morta, não pode estar entre vidas...
- É metafórico... Não compliques o que é simples. – disse Jimbo olhando para ela, depois fechou os olhos, fez uma boquinha.
- Estás bem?! – exclamou ela.
- Era para me beijares... – disse ele.
- Se queres que eu te beije, pedes, não esperes que eu me voluntarie. – disse ela cruzando os braços.
- Ma’linda podes beijar-me? – perguntou ele.
- E?
- E... depois podemos fazer amor?! – completou ele.
- Não tens maneiras, não? E... se faz favor! – ralhou ela.
- Beija-me se faz favor, mulher que se casou comigo por amor... – disse Jimbo.
- Sabes bem que não posso beijar e ver televisão ao mesmo tempo. – disse ela.
Alguns momentos depois Entre Vidas começou a dar na talevisão, para ser interrompida logo de seguida com a emissão especial do Jornal da Noite. Joca Malhoa, pai de Ana Mamalhôa fez uma ameaça pública ao marido dela. Ia torcer-lhe o pescoço em três sítios diferentes quando o apanhasse, e para ele confessar que assassinou a mulher a sangue frio. Ela gostava dele. E ele deu-lhe um balázio no coração. Amor, com amor se paga.
- Não acredito... – disse Ma’linda, no dia seguinte, na sexshop. – Que tenham imterrompido a emissão para dar aquilo.
- Eu acho bem! Eu gostava da miúda, ela era boa cantora. – defendeu Andreia. – E acho que o que o marido fez foi muito mau!
- Eu acho que ele não matou ninguém. Para quê matar a mulher, quando se pode dormir com outras e sem a mulher saber? Assim, o espiríto dela anda por aí, sabe Deus onde e vê tudo... E ainda amaldiçoa o marido! – gozou Ma’linda. – Eu acho é que deviam ter dado o Entre Vidas mais cedo.
- Ah... Não gosto dessa série. E aquela rapariga que faz de Andrea, que é sócia da Melinda Gordon no antiquário, é um bocado canastrona. – disse Andreia.
Momentos depois, Tufa voltou a entrar na loja. Olhou de novo para os artigos que estavam expostos como se nunca tivesse visto tal coisa. Aproximou-se do balcão.
- Então veio comprar uma coleira para si? – perguntou Ma’linda.
- Não. Vinha perguntar se me reembolsam... – disse Tufa. – Eu não tenho aqui o artigo que comprei, mas assim que apanhar o idiota do meu amigo...
- Você não sabe do seu amigo? – perguntou Ma’linda preocupada. – Eu acho que sonhei com ele.
Tufa fez uma careta e deu um leve passo para trás. Depois piscou os olhos muito depressa e engoliu em seco.
- Bem, cada um com os seus fétiches. – disse Tufa.
- Não é isso... É que eu... Eu vejo mortos. – disse Ma’linda, enquanto Andreia estava atrás dela a fazer sinal a Tufa, a dizer-lhe que ela bebia. – Acredite.
- Pois... – disse Tufa abanando a cabeça. – Ouça, se não me quiser dar o reembolso eu percebo, escusa de estar para aí a dizer que vê mortos e que tem sonhos com os meus amigos... Isso não me comove...
- Não. Você percebeu mal. Eu ajudo os espíritos a passarem para o outro lado. – explicou Ma’linda. – E ás vezes eles comunicam comigo atravéz de imagens... Atravéz de símbolos. Eu sonhei com a coleira de bicos, ao pescoço de alguém indefenido, porque eu não conheço o seu amigo...
- Não o conhece, mas acertou na palavra para o classificar. Indefinido... – disse Tufa. – Mas acha o quê... que ele morreu?
- Talvez... – disse Ma’linda. – Onde costuma estar ele a esta altura?
- Hum... – disse Tufa preocupada. – Deve estar a limpar a lixeira que provocou ontem na garagem por causa da festa...
- Ok, vamos lá.
Com a mala a tira colo, Tufa e Ma’linda fizeram-se à estrada e quando chegaram ao pé da garagem de Hugo não havia nada mais senão silêncio. E um carro todo tuning. Tufa e Ma’linda analizavam o local, quando surgiu a cabeça de Hugo do outro lado do carro.
- Como é que é?! Quero ouvir! – gritou ele sobressaltando as duas.
- Hugo... – disse Tufa com um ar enfastiado. – Que carro é este?
- É...o meu. – disse ele com um grande ar de satisfação.
- Eu não disse... – murmurou Tufa para Ma’linda. – É uma coisa diferente cada dia que passa... Hoje armou-se em tunner... ou seja lá o que fôr... E os Abba?
- Abba?! – exclamou Hugo fazendo uma boquinha e uma pose meio estranha para elas. – Blaaarg... Ninguém ouve isso...
Tufa agarou numa pedra e atirou à cabeça de Hugo com muita raiva, e esta rebentou pelo capô do carro fora...Pelo menos imaginou pegar na pedra. Tufa abanou a cabeça e decidiu, abandonar o local antes que fosse tarde.
- É estranho. – disse Ma’linda.
- A sério? Eu não a trouxe aqui para constatar o óbvio... – desabafou Tufa. – Olhe que você também...
- Não, não é isso... Eu sinto uma presença. Sinto que está aqui um espírito... Mas não consigo perceber onde... Não o consigo ver... – disse Ma’linda focando a sua atanção no pavimento para tentar captar alguma coisa... Mas a única coisa que ouviu foram uns murmúrios distantes.
Tufa fechou os olhos por momentos, inalou profundamente e tentou ser racional.
- Vocês estão a gozar comigo não é? Não faz mal... Eu... – disse Tufa olhando para Hugo que se aproximou de Ma’linda.
- Esse decote não é maior que o meu. – disse Hugo apontando para os seios de Ma’linda.
- Já percebi que estou a mais... – disse Tufa pondo a mão no ombro de Hugo. – E, Hugo. Tu não tens decote nenhum.
Tufa foi-se embora. Ia pelo caminho a falar com Cisse ao telefone e a barafustar. Aquilo estava a ir longe demais. Hugo estava a fitar Ma’linda nos olhos. Ela sabia que ele estava acompanhado de um fantasma algures. Talvez ele conseguisse bloquear-lhe a energia. E assim ele não se conseguia manifestar. Ma’linda tentava perceber como é que ele tinha a habilidade de bloquear as energias de um fantasma... Mas também percebia que ia ser um trabalho duro, pois o rapaz parecia ser... bem. Ser. Mas no momento seguinte houve uma luz intensa que erradiou da garagem e explodiu mesmo em cima dos dois numa rajada de vento. E quando explodiu, Ma’linda pôde ouvir as palavras “Estou aqui... Ajude-me”.
Ma’linda entrou dentro da sua loja com o cabelo todo despenteado e um ar meio atordoado. Ela tinha em mãos um caso complicado. Então olhou para Andreia e depois olhou para o computador.
- Temos de descobrir quem estava a vender aquela coleira de bicos, pois ela pode abrir-nos a porta para o espírito que anda a assombrar Hugo e quer passar alguma mensagem. – disse Malinda abrindo o site do miau.
- O leilão já não está disponível. Mas tenho aqui a nota de encomenda... É uma tal Adília.. Está aqui a morada dela. – disse Andreia pegando num papel que estava enfiado num monte deles.
Ma’linda telefonou a Tufa e de seguida ambas estavam a bater à porta de Adília, que morava num monte, no meio do nada. Tufa ainda não sabia muito bem porque razão estavam ali. Adília abriu-lhes a porta. E ficou a olhar para elas.
- Olá... Eu sou a Ma’linda e estou aqui porque recentemente lhe comprámos uma coleira de bicos... – disse ela.
Adília esbugalhou os olhos, olhou para um lado e para o outro para ver se ninguém estava a ouvir, mandou-as entrar depressa e fechou a porta.
- Vocês são da polícia? – perguntou Adília receosa encostada ao armário, onde tinha uma espingarda guardada.
- Não. – disse Ma’linda.
- Ah! – exclamou ela afastando-se do armário. – É que se fossem, comiam já duas balas na testa...
- Desculpe? – disse Tufa assustada.
- Sentem-se então! – exclamou Adília apontando para a mesa. – Querem um chá e uns bolinhos? Sim? Então eu vou buscar.
Adília voltou sorridente, e serviu os convidados.
- É muito simpático da sua parte. – disse Ma’linda.
- Obrigado. – disse Tufa.
- Então que vos tráz por cá? – perguntou Adília quando Ma’linda tirou uma foto da carteira e a colocou em cima da mesa. – Isto.
- É uma coleira de bicos... Eu não uso... Podem ir vendê-la a outro lado. Vocês são tipo... Círculo de Leitores do Sexo ou quê?! – troçou Adília.
- Nada disso. Você vendeu-me esta coleira em leilão pelo miau. Lembra-se? – perguntou Ma’linda.
- Como é que sabem isso? Eu tinha um nick no site... – disse Adília. – Eu quero permanecer anónima quanto a esse colar... percebeu? – disse Adília baixinho.
- Você mandou isto pelo correio quando o carteiro, passou por aqui e ele preencheu o remetente. – disse Ma’linda.
- Cona do caralho, filho de uma puta da merda! Aquele cabreiro da cabra que o pariu... Quié? Não olhem assim para mim! Eu sou uma mulher do norte e digo o que eu quiser, olhó caralho! – disse ela apontando para cima, ao que ambas olharam. – Estão a olhar para onde?
- Você disse: olha o caralho e apontou... – respondeu Tufa com um sorriso amarelo.
- Não sei do que raio estão a falar. – disse Adília tirando o biscoito da boca de Ma’linda e apontando para a porta da sua. – Desandem daqui caralho!
Ma’linda e Tufa foram corridas dalí para fora, mas deram a volta à casa e espreitaram pela janela. Adília estava a gesticular e estava a falar ao telefone. Mas não se conseguia ouvir nada. Então ela pegou numa fotografia da Ana Mamalhoa e tudo fez sentido.
- O seu amigo está a ser assombrado pela Ana Mamalhôa. – constatou Ma’linda.
- Ok. – disse Tufa sacudindo a terra das calças. – Eu tenho mais que fazer que andar por aqui a aturar gente doida... Tenho de ir para casa porque tenho um trabalho para fazer e ninguém me ajuda.
- Um trabalho sobre o quê? – perguntou Ma’linda enquanto se afastavam da casa de Adília.
- Pediram-se para fazer um trabalho sobre uma viagem. – disse Tufa encolhendo os ombros.
- Não pediu ajuda a ninguém? – perguntou Ma’linda.
- Pedi. Pedi ajuda ao Hugo. Disse: ajudas-me com um trabalho sobre uma viagem? Ele sorriu e deu-me uma pastilha de LSD. Idiota... – suspirou Tufa.
- Ok. Vamos tratar disto de forma simples e racional! – disse Ma’linda. – Vamos ter com o Hugo à garagem e levamos um tabuleiro Ouijá.
- Simples e racional?! – exclamou Tufa.
- Traga uma terceira pessoa e velas. – disse Ma’linda.
- Para que devo trazer companhia? – perguntou Tufa.
- Para completar os quatro elementos. – explicou Ma’linda.
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Naquela noite, Tufa, Adília e Ma’linda estavam na garagem, cheia de velas e um tabuleiro no centro, quando Hugo chegou e ficou a olhar para elas. Fitou Tufa por momentos, ela tinha uma expressão que lhe pedia para não fazer perguntas. Adília e Ma’linda sorriram.
- Hugo. – disse Malinda. – Preciso que me dê a sua mão para podermos comunicar com o espírito que o atormenta.
- Olha para esta... – suspirou Hugo. – Ninguém me atormenta! Que raio de conversa é essa? – disse ele ajeitando a coleira de bicos.
- Anda lá fazer esta merda já antes que eu me cheteie! Eu vim para aqui perder o caralho do meu tempo e tenho mais que fazer. Vamos lá a despachar esta merda! – disse Adília.
Então Hugo sentou-se muito sossegadinho. Ma´linda apagou a luz e ficaram à luz das velas, a segurar as mãos uns dos outros enquanto Ma’linda se concentrava. Pouco tempo depois começaram todos a ouvir uma voz, vinda do além.
- ... qual quê... diz que anda possuído! Mas isso já toda a gente sabia... Não era preciso ir lá uma tipa que diz conseguir ver mortos para investigar o Hugo... – disse Cisse.
- É a voz da Cisse. Será que ela morreu? – perguntou Tufa.
- ...care...lho... olha... – continuou Cisse. – O telemóvel está a fazer feedback, acho que alguém está a ouvir a conversa, vou desligar. Até amanhã mãe.
- Ups... – sorriu Ma’linda. – O Ouijá apanhou uma frequência errada. Chamo agora o espírito que anda a assombra o Hugo.
Momentos depois o tabuleiro de Ouijá começou a desenhar as letras e a formar as palavras “Marido” e “Bico”. Hugo tinha a testa franzida, e elas olhavam para ele espantadas.
- Andaste a fazer um bico ao marido de alguém?! – perguntou Adília.
- ... – disse Hugo com uma careta. - ...!
- Não é nada disso. O espírito está a tentar passar uma mensagem. Neste caso... Não consigo perceber palavras soltas. – disse Ma’linda.
Então o tabuleiro desenhou as palavras “Como é que é?!” e “Buéréré”. Ma’linda lembrou-se que ele estava a ser assombrado pela Ana Mamalhôa! Mas não conseguia entender como é que ele lhe abafava a energia para ela se poder manifestar. O tabuleiro voltou a desenhar a palavra “Bico”. Ma’linda pensou por um bocado enquanto olhavam todos uns para os outros. Ela comprou o colar de bicos a Adília que era a sua acessora. Depois vendeu a Hugo e então as manifestações começaram... O colar estava quase como novo, mas falta-va-lhe um bico! É isso! Qaundo ele o colocou ao pescoço, foi possuído pelo fantasma de Ana Mamalhoa. Ma’linda pediu a Hugo que tirasse o colar. Assim que ele o fez, o espírito de Ana Mamalhôa apareceu diante de Ma’linda.
- Ana Mamalhôa?! – exclamou Ma’linda com os brutais seios dela à frente da sua cara.
- Preciso que ajude o meu marido, ele está inocente! Ele não me matou! – disse Ana.
- Ela está a falar com a Ana Mamalhôa?! – exclamou Tufa. – Isto é ridículo... Vou-me embora.
- Espera! – disse Hugo que parece que tinha acabado de acordar. – Parece que me tiraram um peso de cima...
- Ora cala-te! Primeiro és hardcore, depois anos setenta, depois tuning... e no afinal das contas vem-se a descobrir que fazes bicos a homens casados! Por favor... Eu sei que ao fim de dez anos de amizade devíamos estar a felicitarmo-nos, mas sinceramente eu não aguento mais. Por isso... Acaba-se já aqui esta merda toda! – gritou Tufa.
- Mas ele nunca fez bicos nenhuns! – explicou Ma’linda.
- Ah! Já estou a perceber... Participava em orgias com ele não é? E agora está a encobri-lo... – disse Tufa em pé, abanando a cabeça.
- Os bicos são por causa da Ana Mamalhôa! – disse Ma’linda.
- A Ana está morta. – disse Tufa. – Parem de gozar com a senhora! Eu até gostava de ouvir. Vou-me embora.
- Foda-se. – desabafou Adília.
Hugo, por mais estranho que pareça também conseguia ver Ana Mamalhôa e esta pediu-lhe desculpa pelo sucedido e pelos mal entendidos. Ana precisava de falar com o seu pai. Então, no dia seguinte, Hugo e Ma’linda foram a um estúdio na vila, e Joca Mamalhôa estava lá. Ma’linda quase foi corrida. Mas quando disse que eles estavam a pensar fazer um dueto entitulado “Eu vou a todas as Latinas” e que era o mais alto segredo, o senhor assentiu.
- Ela está a dizer para deixar o marido dela em paz, porque... ele estava a usar esta coleira de bicos quando estavam a ter relações sexuais. – disse Ma’linda segurando a coleira. – Mas eles entusiasmaram-se tanto que um dos bicos saltou disparado e cravou-se no peito de Ana. Sua filha. Por favor ele está inocente.
- Filha... – disse Joca. – Eu... Amo-te muito.
- Ela também. – disse Ma’linda. – Se ama a ela própria. Por favor, vá à prisão e fale com ele. Quando sairem os resultados da perícia, vão ver que tudo não passou de um acidente. – sorriu Ma’linda.
No dia seguinte estavam os dois na sala de Ma’linda a ver as notícias. Joca tinha perdoado o marido de Ana, e este tinha saído em liberdade. Ana apareceu-lhes.
- Obrigado. – disse Ana Mamalhôa. – Já vejo a luz, agora vou descansada. Hugo, podes voltar a usar a coleira, mas não a vendas no miau.
- Eu?! – exclamou ele pensando em fazer isso mesmo. – Nunca. Vai descansada.
- Vai. – disse Ma´linda.
Ana Mamalhôa sorriu, acenou e dirigiu-se para a luz.
- Ahm... Ana! – disse Hugo. – Isso não é a luz. É a televisão. A luz é alí. – disse ele apontando para a porta da despensa.
- Uhh... – disse Ana. – Como é que é? Quero ouviiiii.......r – disse Ana desaparecendo.
- Hugo. – disse Ma’linda com um decote monumental, chegando-se mais perto. – Agora que estamos a sós... Eu queria saber como é que consegues ver os fantasmas...
- Bom... Eu posso mostrar-te, mas e o teu marido?
- Nem que eu esteja nua... Ele nunca “vê” nada. Não percebes? – disse Ma’linda saltando para cima de Hugo entornando as pipocas pelo sofá fora.
Naquela tarde fizeram amor. E ambos viam fantasmas. Amor do outro mundo. Mais tarde, naquele mesmo dia, Hugo cortou o cabelo. Fez uma franja. Sim, porque quem vê fantasmas tem por tradição envergar uma franja na testa, símbolo do poder extra-sensorial que se ganha em detrimento da diminuíção da visão por essa mesma causa cabeluda. Hugo pegou num poema muito bonito e para pedir perdão à sua amiga Tufa, dirigiu-se à rua onde ela morava e atirou pedras à janela. Quando ela apareceu, ele começou a declamar:
- Tufa, pensa nos dez anos de amizade que temos… Perdoa-me! – disse Hugo.
- Desaparece! – gritou Tufa quando Hugo olhou para o papel que tinha nas mãos.
- “Tristeza pode ser um sentimento Sentimento menos bom Talvez… Mas lembra-te Existe alguém que esta a mandar isto para ti Simples palavras… simples frases… simples letras!!! Simples coisas, não são??? Mas…” – disse Hugo.
- O quê?! – gritou Tufa irritada.
- “Sempre que te sentires sozinha lembra-te Que existe uma pessoa que está a pensar em ti Uma pessoa amiga ou até uma inimiga Mas se está a pensar em ti é porque fazes diferença A diferença na vida dela… Mas não te esqueças no fim de ler isto que Todos os que leram isto pensam o mesmo que tu… Porque tem alguém que se lembra de nós Por isso vamos provar que a tristeza pode ser um sentimento bom… Inimigos para um dia Amigos para sempre amigos para uma vida… Palavra simples amigos não é…?? =) Mas o que é um amigo…??” – continuou Hugo.
- Cala-te mas é! – gritou Tufa. – Olha a minha vida hã…
- “Afinal eu sei Escrevi isto porque quero mostrar que um amigo Não é uma simples pessoa, não é só alguém, É alguém que diz… estou aqui para sempre… Estou aqui para ajudar-te… Estou aqui para um sorriso te dar… Uma lágrima te limpar… Desse rosto que no meu coração vou guardar… Amigo que é amigo canta para te animar… Amigo que é amigo faz qualquer merda para um sorriso na tua cara ficar… Afinal isto tudo para dizer… amigo que é amigo!” – sorriu Hugo. – Perdoa-me!
- Olha! – gritou Tufa com um balde de água na mão. – Para a próxima que queiras tentar pedir-me desculpa, escreve alguma coisa original, e não vás roubar os poemas ao meu namorado, o Gabriel Dinis! – Tufa mandou a água para cima dele e o balde também. – Seu paneleiro do caralho! – gritou ela fechando a janela.
Hugo ficou todo encharcado no meio da rua. Enquanto um fantasma se partia a rir e apontava para ele.
FIM